Desde que o homem começou a conviver em sociedade no período Neolítico, há mais de 10 mil anos, muitos desafios apareceram à sua frente. Muitas barreiras foram enfrentadas, vencidas ou deixadas de lado. Um desafio que acompanha o ser humano até nossa contemporaneidade é a mentira. Como dizer sempre a verdade?
Claro que as razões para se mentir são várias. Diversas intenções estão por trás de uma mentira. “O homem que sai a noite e diz para a namorada que ficou em casa dormindo, mente porque não tem um diálogo aberto com a namorada e reprime suas vontades” afirma a psicóloga Ana Carolina Monteiro. Essa calúnia sugere que a pessoa tem um “complexo de inferioridade ou superioridade, além de mostrar claramente a falta de maturidade para seguir com um relacionamento amoroso”.
Existem ainda mentiras que interferem política e economicamente de forma complexa e muitas vezes desastrosa. Como exemplo, podemos citar o ex-presidente dos EUA, George Walker Bush, que afirmava antes da guerra no Oriente Médio que o Iraque possuía diversas armas de destruição em massa.
Para azar do ex-presidente, essa afirmação provou ser falsa. “Muitas motivações políticas e econômicas na verdade provocaram a guerra, e não a ‘verdade’ que Bush propunha ao povo americano: uma luta pela liberdade do povo iraquiano, contra a ameaça terrorista e pró-democracia”, afirma a socióloga e filósofa Adriana Munhoz.
Nesse sentido, o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) tinha uma posição radical sobre o assunto. Para ele, “mesmo a mais leve das mentiras é vista como um mal que se comete contra toda a humanidade”.
E quem nunca inventou uma fabulosa história ou apenas aumentou alguns pontos para contar vantagem sobre outras pessoas? Acontece que se essa ‘verdade’ não for bem contada, mais dia, menos dia, outra ‘verdade’, a verdadeira verdade, pode surgir e sua credibilidade já era.
Jonathan Swift, autor de Arte da Mentira Política, diz: “quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte”.
Mentira no trabalho
Para o ex-diretor de Recursos Humanos da Ripasa S/A – Celulose e Papel, Jerônimo Garcia, “mentir no trabalho pode ser uma das piores coisas que uma pessoa pode fazer na vida profissional”.
O empresário Marcelo Diaz diz tolerar a mentira. “Quando um funcionário meu mente, eu posso até perdoar, dependendo da mentira. Mas se a invenção ou omissão prejudicar muito minha empresa, ai é ‘rua’.”
Garcia diz que em grandes empresas, a mentira “sempre é descoberta”. “Imagine uma empresa de médio porte, com 100 funcionários. Sempre tem alguma pessoa de olho em sua posição e em você. Para te dedurarem é fácil” diz.
Para não acontecer problemas desse tipo, Garcia acredita que o diálogo entre funcionário e patrão é fundamental. “Muitas vezes, o funcionário omite ou mente sobre uma determinada coisa porque acha que seu chefe vai ficar muito bravo, mas isso às vezes não acontece.”
Infelizmente, em empresas grandes é difícil controlar os funcionários. “Então, a empresa não vai chamar funcionário tal e tal para saber o que aconteceu, simplesmente ele é demitido por justa causa, se o problema for detectado e considerado grave”, afirma Garcia.
Marcelo Diaz tem consciência que nem tudo que se passa em sua empresa chega aos seus ouvidos. Como sua empresa conta com poucos funcionários, cada empregado é encarregado de desenvolver seu trabalho e de se supervisionar. “Aqui meus problemas são as omissões dos funcionários”. Para Marcelo, a omissão é pior que a mentira. “Encaro isso como traição”.
Desde que começou a trabalhar como engenheiro na Comgás (Companhia de Gás de São Paulo) antes de abrir sua empresa, Marcelo diz que já cansou de ter de resolver deslizes de colegas. “Imagine muita gente trabalhando, às vezes sem motivação. Eram muitos problemas para resolver diariamente, que se acumulavam por pura omissão profissional, pura falta de vontade de fazer a coisa bem feita. E quando vazava uma tubulação de gás ou algo assim, aí era cada desculpa inventada que você não faz ideia. Algumas muito absurdas!”
O empresário afirma que nunca mentiu, mas já pensou em mentir algumas vezes quando estava na Comgás. “Mas sempre contornei as situações. Calculei os riscos de mentir, porque vira e mexe um passava a perna no outro lá dentro. E eu é que não queria sofrer uma rasteira e me ferrar.”
A psicóloga Ana Carolina Monteiro acredita que em determinadas áreas de trabalho a exigência para se alcançar a perfeição é tão grande que o inconsciente do funcionário “camufla suas falhas”.
“Nosso cérebro tem como função tentar evitar problemas e sofrimentos. Para isso, ele camufla suas falhas e defeitos. Ou seja, muitas vezes o funcionário se engana, e consequentemente engana os outros.”
A dica dos profissionais entrevistados é comum, ou seja, tentar evitar ao máximo as mentiras e omissões porque, por mais simples que sejam, elas com certeza sempre são descobertas e quando são, é torcer para não acontecer o pior. Lembre-se que seu chefe não é Jesus e muito provavelmente ele não te perdoará por ter sido enganado.